"Fotografia é a concessão da eternidade para aquilo que os nossos olhos, por ventura, possam descuidar. O poder divino de congelar o tempo, o sopro do criador, contrariando a epopeia dos ponteiros do relógio que, apesar de círculos, fazem a vida seguir adiante. Já o carnaval, congraçar de artes, intersecção de todas elas, é a concessão de altar, monarquia e também eternidade para os saberes que emanam do povo. Nenhum outro profissional uniu fotografia e carnaval - sob as bênçãos de sua vocação e 18 anos de relação com moda - como Yuri Graneiro, cujas lentes apresentam com sofisticação, inovação e poesia a natureza sensual de personagens imaculados das escolas de samba. A festa pagã, com gênese na antiga Saturnália, tem suas liturgias particulares e, paradoxalmente, protagonistas com características sagradas. Quão sacro é o bailar da porta-bandeira! Cortejada por um mestre-sala, espécie de beija-flor a semeá-la de encantamento com seus voleios, defende com bravura o pavilhão que representa toda uma gente. Mas é, antes de tudo, mulher, e na carona de vaidades próprias, caprichos sui generis, e que mereciam o conhecimento do público. E foi Yuri o maior dos desbravadores da arte além da arte, revelando ao mundo o que está por trás da fantasia que se encerra nas Cinzas da quarta derradeira. A carnavalesca, a senhora da velha guarda, a passista, a compositora, a baiana do tabuleiro farto... A folia é dos malandros, dos boêmios, do sambista, mas fundamentalmente feminina, das formas, de ousados desenhos corpóreos. Basta lembrar que Oscar Niemeyer cunhou a forma consagrada do monumento da Apoteose pensando justamente nas curvas da mulata, aquela que é a tal. O pioneirismo de Yuri está aí, na compreensão, como nenhum outro, da alma feminina de nossa festa maior, de nossa festa-mãe. Sua arte revela sem invadir, desnuda sem gratuidade, instiga e provoca pelo diálogo franco entre personagem e apreciador. É a beleza pura, sem juízos de valor, o retrato essencial de uma festa imodesta. Ave Yuri Graneiro! E um brinde às suas, que são tão nossas, mulheres do carnaval..." Fábio Fabato, escritor e jornalista.